quarta-feira, 4 de novembro de 2015

RITOS no Brasil



E
ntre o final do século XVIII e início do XIX, fruto do desenvolvimento da Mac\ Operativa, foram definidos procedimentos ritualísticos que iriam caracterizar os trabalhos desenvolvidos em Lojas.  O que parecia simples, logo se transformou numa proliferação de procedimentos diferenciados que fizeram surgir diversos graus e novas ritualísticas, que ficaram reconhecidas por denominações, ou Ritos específicos.

Na Europa, especificamente no Grande Oriente de França, em virtude da pressão de irmãos mais conservadores, houve por bem buscar uma fórmula para harmonizar as diferentes doutrinas que vicejavam desordenadamente num emaranhado proliferar de altos graus, seja por influência dos cavaleiros, da nobreza e até de misticismos, que  desfiguravam os procedimentos básicos criados para a ritualística da Ordem. Assim, o Grande Oriente de França nomeou uma comissão de maçons de elevada cultura para estudar todos os sistemas existentes e elaborar um rito composto do menor número possível de graus e que contivesse os ensinamentos maçônicos em sua plenitude.

Após alguns anos de estudos, a comissão não conseguiu chegar a um consenso e recomendou  manter  apenas os três graus iniciais. Em Agosto de l777, o Grande Oriente acatou a conclusão da comissão e enviou circulares a todas as lojas da obediência, afirmando que  só seriam reconhecidos  os três primeiros graus simbólicos, fato que gerou de imediato a reação  de alguns  irmãos, como por exemplo, aqueles que praticavam o Rito de Perfeição ou  de  Heredon,  com seus 25 graus em prática.

O resultado é que alguns Ritos continuaram com seus graus e durante alguns anos permaneceu a discussão em aberto, até que em 1782,  uma nova comissão, com o nome de Câmara dos Ritos, concluiu pela uniformização de três graus simbólicos, e que cada Rito poderia ter outros graus de acordo com seus procedimentos.

Em l785, foram  editados os  rituais  oficiais para os três graus simbólicos, resultado da uniformização e da codificação das práticas das Lojas Francesas nos anos anteriores.  

Atualmente já foram contabilizados mais de 400 Ritos diferentes, sendo alguns deles de quase ou nenhuma expressão. E no Brasil, os principais Ritos praticados são: o Rito Escocês Antigo e Aceito, predominante, com mais de 85% de adeptos; Rito de York; Rito Adoniramita (de uso muito restrito); Rito Moderno ou Francês; Rito Brasileiro; e o nosso Rito de Schröder, considerado um Rito em ascensão.

DEFINIÇÃO

Na linguagem coloquial, de acordo com os dicionários em vigor, Rito é definido como  “qualquer cerimônia de caráter sacro ou simbólico que sugere uma prática estabelecida”. Para a Or\Mac\ existe uma pequena e sutil diferença na descrição, ou seja, o Rito é caracterizado não como a “cerimônia” mas sim como o “conjunto de regras ou normas, com as quais se praticam com certa regularidade um complexo de cerimônia”.

RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO

Nasceu no catolicismo, no século XIX, na provável data de 31 de maio de 1801, sendo depois aristocratizado. Algumas de suas principais características são:
  •  33º graus – os três primeiros graus são básicos e subordinados a uma obediência; do 4º ao 33º são graus considerados filosóficos e caracterizados pela Pot\;
  • na vestimenta, a gravata preta e os Punhos para o V\.M\ e Vigilantes;
  • os Aventais seguem a Convenção de  Lausanne.  Para o A\M\, Avental branco (de 35cm / 40cm), com a abeta voltada para cima. O de C\M\, também branco, sua abeta é para baixo. O Avental do M\M\ apresenta sua abeta também para baixo, com as bordas originalmente bordadas em vermelho, e com as letras MB no centro.  Atualmente a maioria das Lojas do REAA utiliza a cor azul para a borda de seus aventais;
  • a Loja do REAA é ornamentada por diversos símbolos e alegorias, tais como: o pavimento mosaico; as colunas zodiacais; a abóbada celeste; o gradil entre o Oriente e Ocidente; o Altar de Juramento; o Olho Que Tudo Vê; a  Estrela Flamígera; a Corda de 81 Nós; a Espada Flamejante; o Painel de Graus; o  Mar de bronze e o Turíbulo ou Incensário;
  •  no Ritual do REAA, destacamos: a Bolsa de Propostas e Informações; o giro ritualístico (ou hierárquico) para o Tronco da Solidariedade; a  Prova dos Elementos, quando na Iniciação e a presença obrigatória do Orador para “dar legalidade aos trabalhos” em cada sessão.

RITO DE YORK

Sob a liderança de Mario Behring, e inspirado na Grande Loja de Nova York, surgiu no Brasil no séc. XX, em 1927, juntamente com a criação das Grandes Lojas estaduais brasileiras. Apresenta algumas características próprias:
  • os cargos em Loja possuem denominações diferenciadas, ou seja: Diretor de Cerimônia; Capelão; Organista;  Esmoler;  Mordomo e Administrador da Caridade;
  • na ornamentação do Templo, destacam-se: o Pavimento Mosaico; a letra “G” no centro da Loja;  os pedestais do V\M\ e dos Vigilantes; a Pedra  Bruta esquadrejada; o Altar de Juramento; a  Espada para o Guarda Externo; os Painéis de Graus e o andar esquadrando o templo;
  • a cor predominante do Rito de York é o azul.
RITO ADONIRAMITA

Introduzido no Brasil no início do século XIX pelo GOB (inicialmente, Grande Oriente Brasílico), em 1822, ao lado do Rito Moderno ou Francês. Por determinação do Imperador D. Pedro I foi proibido de funcionar e alguns anos depois liberado. Atualmente raras são as Lojas que ainda o praticam.

O Rito Adoniramita se caracteriza por seu “Sistema de Sete Graus” e uma grande riqueza cênica em suas  cerimônias, tanto as  magnas de Iniciação e Exaltação quanto outras específicas, tais como:
  • a  Cerimônia de Incensação;
  • o  Cerimonial de Fogo;
  • as Doze Badaladas Argentinas;
  • a  Cena da Traição.

RITO MODERNO ou FRANCÊS

O Rito Moderno ou Francês tem origem no séc. XVIII, ano de 1761, em Paris. Constituído em dezembro de 1772, foi oficialmente proclamado em 09 de marco de l773, pelo Grande Oriente de França. Inicialmente composto por três graus, adotava as primeiras Constituições de Anderson de  l723.

Em 1786, após uniformização dos três graus simbólicos, o Rito Moderno ou Francês atualizou seus rituais incluindo 4 graus filosóficos com as seguintes denominações:
  • 1ª Ordem - 4º   Grau - Eleito
  • 2ª Ordem - 5º   Grau - Eleito Escocês
  • 3ª Ordem - 6º   Grau - Cavaleiro do Oriente ou da Espada
  • 4a. Ordem - 7º   Grau - Cavaleiro Rosa-Cruz
 Atualmente, no Brasil, o Rito Moderno funciona com mais 2 graus acrescidos na5ª Ordem:
  • 5ª Ordem - 8º  Grau - Cavaleiro da Águia Branca e Preta, Cavaleiro Kadosh Filosófico, Inspetor  do Rito.
  • 5ª Ordem - 9º  Grau  -  Cavaleiro  da  Sapiência  -  Grande      Inspetor do Rito.
Destaca-se como característica principal do Rito Moderno ou Francês, sua filosofia básica, que não está presente diretamente em seus rituais, mas na sua própria história.

Com base na Mac\ Francesa, da época em que prevalecia o Humanismo, e portanto os pensamentos racionais e científicos, seus ensinamentos são mantidos até os dias de hoje., como por exemplo, a máxima de que “ o maçom deve ter a faculdade de pensar livremente, de trabalhar para o bem-estar social e econômico do cidadão, de defender os direitos do homem e uma melhor distribuição de rendas”.

Não admite a limitação do alcance da razão e desaprova o dogmatismo e imposições ideológicas, inclusive de credos religiosos. Seu comportamento racionalista é adogmático, pela busca da Verdade, ainda que provisória e em constante mutação, e do respeito absoluto à liberdade de pensamento e consciência.

A filosofia do Rito se opõe a qualquer espécie de discriminação. A não admissão de mulheres dá-se em decorrência de tratados e não da natureza do Rito.

RITO BRASILEIRO

O Rito Brasileiro, de Maçons Antigos, Livres e Aceitos, é formado por 33 graus independentes. Sua filosofia básica é teísta e entende que “prevalece o espírito sobre a matéria e a existência de um Princípio Criador - o Supremo Arquiteto do Universo”. E para esclarecer aos que indagam sobre o Rito, a resposta vem numa frase: "Cultiva a tua religião e segue as inspirações da tua Consciência. Ama o teu semelhante e a Terra que te acolhe".

Sua história não é totalmente clara. Alguns historiadores afirmam que é originário de um grupo de maçons, comandados por José Firmo Xavier, da Grande Loja Provincial de Pernambuco, que entre 1848 e 1878, elaboraram uma Constituição Especial para o Rito Brasileiro.

Talvez com a intenção de fins políticos, ou ainda para obter as benesses do governo imperial, o grupo buscou apoio em D. Pedro II, que nunca foi maçom, e entregou os documentos, hoje depositados na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, para tutela do Imperador e do Papa, que nada fizeram em prol do movimento e, evidentemente, a tentativa de fundação do Rito não deu certo.

O desejo de criação do Rito não morreu e em dezembro de 1914, foi criado e incorporado o Rito Brasileiro ao Grande Oriente do Brasil, com reconhecimento e autorizado a funcionar em outubro de 1916. No entanto o Rito logo adormeceu.  Não foram fundadas Lojas e muito menos criados seus rituais.  

Apesar do tempo decorrido, e pela persistência de abnegados irmãos, em 1940, o Ilustre Conselho aprovou uma nova Constituição e autorizou o Grão-Mestre a reativar o Rito Brasileiro, cuja regularização foi conduzida por Comissão que publicou em 1941 um Ritual, ainda provisório, com 19 artigos, cópia do Rito de York, alterando apenas a Pal\ de Pas\ para “Cruzeiro do Sul”. Era composto de 3 graus simbólicos e outros 4 reconhecidos como títulos de Honra.

E somente em abril de 1968, foi aprovado pelo Supremo Conclave do Brasil, sua Constituição, juntamente com o Regulamento Especial e o Estatuto do Rito Brasileiro, com 3 graus simbólicos e 30 filosóficos, do 4 ao 33. O Rito foi ratificado por aclamação em 10 de junho de 1968, pelo Tratado de Amizade e Aliança Maçônica entre o Grande Oriente do Brasil e o Supremo Conclave do Brasil.

O Rito Brasileiro, conhecido como Rito Maçônico Perene, é também identificado como Rito Maçônico Brasileiro ou o Rito da Maçonaria Renovada, exige dos seus Ob\ a Vida Reta e o Esp\ Frat\, e busca conciliar a Tradição com a Evolução, para que assim a Mac\ não se torne uma força esgotada. E tem como objetivo básico “resgatar informações escondidas nas profundezas abissais do oceano da natureza humana e que possam prestar serviço e benefício ao maior número possível de pessoas”.  Destacam-se como algumas de suas características próprias:
  • o Brasão do Rito, representado pelo Tríplice Triângulo dentro de um círculo encimado pela legenda URBI ET ORBE (que significa sua atuação nacional e internacional, expressão antes utilizada privativamente pela Igreja Romana) e com a legenda inferior HOMO HOMINIS FRATER (O Homem é um Irmão para o Homem);
  • a Medalha do Supremo Conclave, que possui a forma de uma estrela de sete pontas raiadas, com as legendas RITO BRASILEIRO, na parte superior, e SUPREMO CONCLAVE DO BRASIL, na inferior;
  • a Medalha do Grau, confeccionada em latão dourado, com o Olho no ângulo superior, separado por linha larga, abaixo da qual o Tríplice Triângulo com o número 33 ao centro. Ao alto, à esquerda, a palavra HOMO tendo à direita, a palavra HOMINIS e, em baixo, a palavra FRATER;
  • o Estandarte do Rito é confeccionado em cetim violeta, medindo 100cmx70cm, tendo, ao centro, o Brasão em cor amarela;
  • a Bandeira do Soberano Grande Primaz é em tecido branco, tendo uma Fênix em cor violeta, encimada pelo Brasão do Rito e com a legenda PAX OPUS JUSTITIA EST na parte inferior;
  • o Soberano Grande Primaz traja, nas sessões magnas, terno e sapatos pretos, camisa branca e gravata preta ou violeta, com o Manto Níveo, ou da Luz Intensa, com o Cordão da Humildade, em cor violeta ou preta. À cabeça, traz o Solidéu branco, de quatro estrias violetas; ao pescoço, o Colar de 33 nós, e no dedo anular da mão direita, o Anel elaborado em ouro, com turmalina violeta ou ametista;
  • nas sessões magnas da Iniciação, porta o Cetro da Força trabalhado em acácia ou mogno e metal nobre. O Cetro é, parcialmente, oco e contém, no interior, a ata da sessão de eleição do S.'. G.'. P.'. em uma das pontas e a ata da sessão de posse, na outra;
  • presa ao Manto, à altura do coração, a Serpente sobre o Tao, em alfinete ou adorno de metal nobre;
  • o Selo é confeccionado em metal e consta de Cruz Papal com a inscrição GRANDE PRIMAZ, SERVIDOR.
RITO SCHRÖDER

Assim como na França, a Mac\ da Alemanha, por volta de 1782, sentiu a necessidade de elaborar um novo ritual, procurando eliminar descaracterizações, erros e mesmo dúvidas decorrentes do que era então utilizado. Foi constituída uma Comissão para reerguer a Mac\ de acordo com sua origem Inglesa, integrada, em 1788, pelo Irmão Friedrich Ludwig Schröder.

Após algumas tentativas sem sucesso para a aprovação do novo Ritual, somente em junho de 1801, na Assembléia Geral dos Veneráveis Mestres da Grande Loja Provincial da Baixa Saxônia e Hamburgo, sob o malhete do G\ M\ Friedrich Ludwig Schröder, que “considerava a Constituição Inglesa e o velho Ritual Inglês, como as únicas fontes da finalidade e da essência da Maçonaria”, o texto foi oficialmente aprovado.
Em 1853, pouco menos de 40 anos após a morte de Schröder, a Grande Loja de Hamburgo fez uma nova revisão e liberou um ritual para uso oficial, que ficou em uso até 1935. Esta versão serviu de base para novas edições, especialmente através das Lojas “Absalom zu den Drei Nesseln Nº 1 (Absalom das Três Urtigas)”, do Or. de Hamburgo, “Friedrich zum Weissen Pferd Nº. 19 (Frederico ao Cavalo Branco)” e “Zum Schwarzen Bär Nº 79 (Ao Urso Preto)”, ambas do Or. de Hanover.

Estas revisões, realizadas de forma independente, fizeram com que existissem na Alemanha 2 rituais oficiais e mais 2 admitidos para o Rito Schröder, que foram unificados no ritual de 1960, pela Comissão Ritualística da Loja Absalom Nº 1, com as alterações e adaptações consagradas nos Usos e Costumes da Loja e consagrado como o Ritual da Grande Loja dos Maçons Antigos, Livres e Aceitos da Alemanha – GL AFuAMvD,

Chegou ao Brasil pela colonização germânica, no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Inicialmente falado em alemão, aos poucos foi adaptado para o idioma português.

Em 1957, o Ir.’. Wigando Schmidt da Loja Mozart Nº 8 de Joinvillle – SC, traduziu, e sua Loja publicou, a 1ª versão em Português do Ritual Schröder de 1853. E, em 1982, o ritual de 1960 da Loja Absalom Nº 1 foi traduzido pelos Irmãos Gerhard Ludwig Richard Reeps, M.I., e Kurt Max Hauser, P.G.M., para a Loja “Concordia et Humanitas” Nº 56.  Este Ritual foi homologado pela G\L\M\E\R\G\S\, para uso das Lojas da sua Jurisdição e atualmente é a base dos rituais adotados pelas demais Grandes Lojas brasileiras. O G\O\R\G\S\ homologou seus Rituais em 1996, com base na mesma versão de 1960, de acordo com proposta elaborada pela Comissão Ritualística da Loja “Harmonia IV – Zur Eintracht, 1874”, do Or. de Porto Alegre. Atualmente é reconhecido pelas Grandes Lojas estaduais; pelo GOB e pelos Grandes Orientes Estaduais Independentes.

O Ritual Schröder é dividido em 5 partes: os rituais para os Graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom; o ritual Festivo: “Loja de Mesa” ou ”Banquete Ritualístico” e o ritual “Loja de Funeral” ou “Noite de Exéquias”, ambos no Grau de Aprendiz Maçom.

Como característica básica, se observa a simplicidade de seus templos, praticamente sem ornamentações e pouquíssimas alegorias, tais como o Tapete, que possui todos os símbolos necessários para o perfeito entendimento dos graus,  o Livro Sagrado e as Luzes que ornamentam o próprio Tapete, o V.M. e seus Vigilantes. 

Algumas características do rito:
  • três graus simbólicos, determinam seus trabalhos;
  • somente os cargos de V.M., Vigilantes e Tesoureiros são eletivos;
  • o Orador é nomeado pelo V.M. e não atua como guarda de lei;
  • nas sessões, a palavra franca  é concedida pelo V.M. através do segundo Vigilante;
  • o uso de chapéu (ou cartola) é obrigatório nas sessões;
  • o Avental do Aprendiz é  similar ao de outros ritos, na cor branca, com sua abeta levantada e o de Companheiro, com a abeta para baixo;
  • o Avental de Mestre, V.M. e ex-veneráveis, são também brancos porém com a borda azul e abeta abaixada sem rosetas ou taús para ornamentá-los;
  • o Rito Schröder  não adota a cerimônia de instalação do V.M., podendo, no entanto, seus VV.MM serem instalados em outros ritos;
  • além das sessões ritualísticas, o rito prevê outros tipos de sessões, ou seja,  sessões “a campo”, ou fora do templo, para o tratamento de assuntos administrativos, trabalhos ou instruções e a Noite dos Convidados, uma sessão especial, utilizada para a apresentação de candidatos à Loja;
  •  todos tem direito ao voto e à palavra.



Nota:
A trabalho em questão foi baseado em pesquisas na Internet, com trechos de autoria não identificada, da Wikipédia e do Ir\ Ubyrajara Filho e  tem como objetivo principal o incentivo à pesquisa, principalmente aos recém iniciados, sem no entanto ter a mínima pretensão de esgotar o assunto.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A Cadeia de União



A
 Cadeia de União é uma formalidade presente em praticamente todos os Ritos. E segundo diversos autores, é o mais perfeito símbolo da unidade maçônica. As mãos entrelaçadas formam elos sem princípio nem fim e que representam a união perfeita, a fraternidade existente entre os irmãos. É o símbolo que talvez melhor represente a unidade da  família maçônica.

O trecho lido do Salmo 133, “Oh! Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em União!”, em diversos Ritos, parece uma perfeita descrição do sentimento maior da Cadeia de União, ou seja, como é bom e suave a vida em união entre os IIrr\.  É a grande instrução para que juntos possamos ser fortes suficientes para superar as fraquezas e realizar nossos propósitos e crescimento, seja no plano material quanto no espiritual.

No Rito Schröder, a Cadeia de União é obrigatória após o término de todas as suas sessões e é vista principalmente como símbolo de Solidariedade e Reconciliação Universal.  Sintonizados pela força positiva de um pensamento em comum e no mesmo compasso, uma oração do V\M\  fortalece e canaliza as energias em busca da benção do G\A\D\U\ principalmente para os mais necessitados naquele momento. Termina com uma bat\ correspondida por todos os irmãos presentes na Cadeia.

Independente da visão exotérica, fortalecida pela credibilidade nos efeitos da mentalização positiva, uma das primeiras referências formais à Cadeia de União, data de meados do século XVIII, quando o Grande Oriente da França, criou a Pal\Sem\, um sinal de Reg\ Maç\,  adotado praticamente em todas as Potências até os dias de hoje, e definiu que sua transmissão seria oral, em voz baixa, na orelha de cada irmão, e por uma Cadeia de União comandada pelo V\M\ao final da sessão, com a participação de todos os irmãos no centro da Lj\. É claro que com o passar dos tempos e de todas as influências que definiram a criação de novos ritos, inclusive, a Cadeia de União passou a ter outras definições, mas todas se concentram na força de uma união espiritual transmitida pela força de seu elos que caracterizam  a igualdade entre os irmãos, onde não existe o mais forte, nem o mais fraco, e se um deles se romper, imediatamente deve ser substituído.

É de bom senso, que para uma maior concentração, as palavras do V\M\, condutor tanto da oração quanto dos pedidos de energia positiva, que não devem ser dispersas ou numerosos pois certamente divide a concentração, e sempre que possível, realizada com  baixa iluminação do salão e música ambiente, bem relaxante, pois reforçam a absorção dessa energia interior.

Alguns ritos, como o Adonhiramita, o Venerável Mestre ao iniciar a Sessão  comunica a realização da Cadeia de União, que  deverá ser realizada antes do encerramento da sessão,e com o Liv\ da L\ ainda aberto, e  determina apenas um objetivo ou um rogo, para evitar a dispersão da energia.

De acordo com Rito Escocês Antigo e Aceito, assim como diversos outros ritos, a Cadeia de União apresenta  uma formação específica. O V\M\ ocupa o lado mais oriental da Cadeia, à sua direita, o Or\, e à sua esquerda, o Sec\. No lado mais ocidental encontra-se o M\Cer\,   bem à frente do V\M\, ladeado à esquerda pelo 1º Vig\ e à direita pelo 2º Vig\. Os demais Irmãos do quadro completam a Cadeia,  próximos de seus lugares em Loja.

Com base na egrégora criada a partir da soma da energia coletiva da Cadeia de União, esta é também vista como um verdadeiro Círculo Mágico e Sagrado, onde a energia espiritual flui através de cada elo e constitui o verdadeiro Esp\ Maç.: , que deve estar vivo e radiante em cada maçom, que desde sua iniciação é visto como um homem livre e de bons costumes.

Importante observar, que somente com o esforço individual de concentração e meditação, será possível o entendimento maior daquilo que não se lê nos rituais. As atitudes e diferenças, passíveis de ocorrerem entre irmãos e mesmo com os não iniciados, não devem influenciar nos objetivos da Cadeia de União, que servirá inclusive para que estes mais enfraquecidos possam reforçar e revigorar seus elos com a força da fraternidade.

No rigor da postura, a Cadeia de União deve ser formada com os pés em Esq\, calcanhares unidos e as pontas dos pés tocando a dos que estão ao seu lado. Os braços cruzados, sendo o da dir\ sobre o esq\ de modo que a m\ dir\ de um aperte a m\ esq\ do outro em forma de Gar\.  Essa formação simboliza os 3 toques da Cadeia de União:  dos Pés, das Mãos e o Mental.  A quebra da Cadeia deverá ser lenta e suave, para que a força de cada um se estabilize no seu circuito fechado. Cabe ao V\M\ informar se a Cadeia será realizada de acordo com a ritualística ou sem formalidades.

sábado, 13 de junho de 2015

A Origem do Balandrau na Maçonaria Brasileira

O  substantivo masculino balandrau (da forma latina hipotética balandra), designa a antiga vestimenta, com capuz e mangas largas, abotoada na frente; designa também, certo tipo de roupa usada por membros de antigas confrarias, geralmente religiosas.

Embora alguns autores insistam em dizer que o balandrau não é veste maçônica, o seu uso remonta à primeira das associações de ofício organizadas (cujo conjunto é hoje chamado de maçonaria de ofício, ou Operativa), a dos “Collegia Fabrorum”, criada no século VI a.C., em Roma.

Segundo Steinbrenner, em “História da Maçonaria”, os collegiati, quando se deslocavam pela Europa, seguindo as legiões de soldados romanos, para reconstruir o que ia sendo destruído pelos conquistadores, portavam uma túnica negra. À semelhança deles, os membros das confrarias operativas dos francos-maçons medievais (século XIII em diante), quando viajavam para outras cidades, outros feudos ou outros países, usavam um balandrau negro. Os que condenam o uso do balandrau costumam afirmar que o Maçom deveria apresentar-se nas Sessões das Lojas, vestindo terno preto, camisa branca, gravata, sapatos e meias pretas; isto é altamente discutível. Tome-se por exemplo as regiões quentes nos Estados Unidos, onde os Maçons costumam trabalhar em mangas de camisa, portando o avental, evidentemente, pois traje maçônico mesmo, é o avental, já que sem ele o Maçom é considerado nu.

Na realidade, discutir traje ( além do verdadeiro traje, que é o avental), na Maçonaria, é o mesmo que discutir o sexo dos anjos, pois, sabendo-se que o traje masculino sofre variações através dos tempos, variando, inclusive, de povo para povo, na mesma época, é evidente que não se pode determinar a maneira de trajar. É permitido, por exemplo, em qualquer lugar do mundo, o uso de roupas típicas para Maçons estrangeiros (o albornoz árabe, por exemplo), ou o uso de uniforme, por parte dos militares, desde que estejam, é claro, com seu avental maçônico.

A existência de traje a rigor para os Maçons, mostra grande dose de influência clerical, significando o traje como sinal de respeito, o que, realmente, é inadmissível, já que a consciência do Homem está em seu interior, e não na sua roupa. A Igreja, que é bastante conservadora, já tem abandonado esta exigência; com mais razão, deve faze-lo a Maçonaria que, sendo evolutiva e progressista, não comporta anacronismos.

Que fique bem claro que traje maçônico é o avental, mas sob ele deve haver uma roupa decente; e o balandrau, como roupa decente, pode uniformizar o traje, o que é também, uma forma de mostrar a igualdade maçônica, evitando as ostentações do vestuário. E jamais nos esqueçamos que o balandrau já foi traje dos Maçons de Ofício. Só é preciso ter em mente que o balandrau (que
também é usado pelos Expertos, em algumas cerimônias) é veste talar, ou seja, deve se estender até os talões, ou calcanhares.

Tese de José Castellani (Publicado na revista A TROLHA n◦ 52 de fevereiro de 1991)

terça-feira, 24 de março de 2015

O Maçom no Brasil do Séc. XXII



I
nício do Século XXI e nos perguntamos como estará nosso mundo daqui há 100 anos. Como será nossa vida, nosso dia a dia, e o que a evolução da tecnologia, que não desacelera, irá nos trazer para superar o já tecnológico Século XX?

O XXI nasceu como a era dos celulares, ou melhor, dos “smartphones”, aparelhos que apresentam variedade incrível de modelos, cores, pesos e até de formatos, como os relógios e que já são comuns no mercado.

A tecnologia também é outro fator surpreendente. São tantas “coisas” que podemos fazer hoje com um telefone, desculpem, com um “smartphone”, que se por um lado fica difícil pensar em novidades, por outro, faz com que nossa imaginação voe cada vez mais - pense nos “dromes”.

Dizem que é possível fazer de tudo com eles, os “smarts”, inclusive usá-los como simples telefone, embora para este uso temos visto mais dificuldades do que usá-los para jogos, fotografias, internet ou mesmo para ligar uma TV.

E nessa linha fica a reflexão: será que haverá espaço para a sobrevivência de uma sociedade de homens que se apresenta ainda restrita, com usos e costumes de séculos passados? O que poderemos aspirar, tanto para a Órdem quanto para o maçom do próximo século? Para o maçom no Brasil do Século XXII.

Ao viajarmos nesse pensamento, não podemos deixar de pensar na cadeia de nossa sobrevivência, que vai da qualidade de nosso planeta até as atitudes mais simples das regras de convivência em nossa sociedade.

O otimista supera a realidade da destruição de florestas e das geleiras, do calor, que a cada ano bate novos recordes, e das crises de energia e água, com a esperança de novas tecnologias e o desenvolvimento de engenhocas cada vez mais modernas, além da conhecida adaptação do homem ao seu universo, como bem descreveu Darwin.

O pessimista trata o futuro com base na própria história da humanidade, que apresenta de tempo em tempo, terríveis ciclos de destruições e catástrofes, como o fim dos dinossauros, a queda dos 500 anos de império romano, as guerras mundiais e mesmo doenças como a gripe espanhola e a AIDS, ou seja, a qualquer momento uma nova e grande tragédia vai mudar o mundo e porque não nos próximos 100 anos?     
        
Toda cautela é pouca, mas entre um e outro, preferimos uma posição mais central, “nem muito ao mar, nem muito a terra”, como diriam nossos pais, ou nossos avós, em séculos passados.  Mas antes de pensarmos no futuro, vamos olhar um pouco para o passado. Para os idos de 1822, o ano de nossa Independência, que segundo Laurentino Gomes, no seu livro “1822” (Editora Nova Fronteira, 2010), era um Brasil que “...tinha, de fato, tudo para dar errado...”. Um momento de “... população pobre e carente de tudo, ... economia agrária e rudimentar, dominada pelo latifúndio e pelo tráfico negreiro... O analfabetismo era geral... As perspectivas de fracasso, portanto, pareciam bem maiores que as de sucesso...”, e o “... Brasil conseguiu manter a integridade do seu território e se firmar como Nação independente...". E 1822 foi também um marco para a Maçonaria no Brasil.

No início daquele século, em 1801, foi instalada a primeira loja maçônica brasileira, composta praticamente de homens ligados à nobreza e seus descendentes. Era filiada ao Grande Oriente da França, na época, praticamente um instrumento nas mãos de Napoleão Bonaparte.

Em menos de uma década, a partir de 1809, foram fundadas várias lojas no Rio de Janeiro e Pernambuco, e em 1813 criado o primeiro Grande Oriente Brasileiro, sob a direção de Antonio Carlos Ribeiro de Andrada e Silva, com a clara missão de se afastar da submissão ao Grande Oriente de Lisboa. Era mais um passo para a Independência do Brasil, um desejo do povo brasileiro que crescia a cada dia, principalmente entre os maçons.

Se por um lado as opiniões controversas sobre a influência da Maçonaria nas Revoluções Francesas permeavam a corte no Brasil, por outro, os ideais da Independência eram cada vez mais fortes, motivado principalmente pelas conquistas na América Latina.

No entanto vinha dos Estados Unidos, a maior influência na reforma constitucional em busca da soberania. O grande país da América do Norte declarou sua Independência em 1776 e a conquistou por definitivo em 1783, após vencer a guerra contra a colonização inglesa, com apoio da França e Espanha e principalmente dos maçons, responsáveis diretos pela formação e transformação do país. É possível afirmar que os EUA nasceu maçom.

Em 1787 foi aprovada a sua Constituição, e em 2 de outubro de 1789, elaborado a primeira Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, onde estavam presentes os valores do Iluminismo de Rousseau, ou seja, da liberdade e da igualdade civil, do primado da lei, da propriedade, da necessidade da contenção do poder soberano, da Constituição, da separação de poderes, etc. Era essa a maior mensagem para o maçom brasileiro, que desejava não somente cortar as  amarras de Portugal mas também constituir sua soberania livre e de bons costumes. E esse afastamento de Portugal serviria também para se livrar dos olhos de  Napoleão que caminhava para aumentar seus domínios na Europa.  

A Maçonaria, pelas mãos dos irmãos Andradas, transformou-se num centro de atividade política, base para a difusão dos ideais do liberalismo. E em maio de 1822 se instalou no Rio de Janeiro o Grande Oriente Brazílico, com José Bonifácio de Andrada e Silva o seu primeiro Grão-Mestre, na época muito questionado por outros maçons pela criação da também sociedade secreta, o Apostolado, que apoiado por três colunas fundamentais (Palestras), na primeira delas aparecia a denominação de “Independência ou Morte”, que pouco tempo depois seria utilizado como lema de nossa independência.

Sob a liderança de Gonçalves Ledo, a Loja “Comércio e Artes” trabalhava de forma incansável pela Independência do Brasil, com destaque para o maçom, Capitão-mor José Joaquim da Rocha, responsável pelo planejamento que resultou no “Dia do FICO”, ato de D. Pedro contra a Corte de Lisboa, que insistia em seu retorno a Portugal.
Para Gonçalves Ledo e outros líderes maçônicos, a coroação do movimento viria com a própria iniciação de D. Pedro, o futuro Imperador do Brasil, nos mistérios da Maçonaria, assim como foram outros Imperadores da Europa e os primeiros Presidentes dos EUA.

E no dia 2 de agosto de 1822, na Loja “Comércio e Artes”, por proposta de José Bonifácio, o então Príncipe D. Pedro, que recebeu o nome histórico de “Guatimozim”, em homenagem ao último imperador Asteca morto em 1522, foi iniciado e elevado à Mestre, e em seguida alçado ao posto de Grão-Mestre da Maçonaria no Brasil, o que comprovaria sua íntima ligação com a causa da Independência.

Na histórica sessão de 20 de agosto de 1822, presidida por Gonçalves Ledo, e com D. Pedro ausente, por viagem à São Paulo, foi proposto, e aprovado por unanimidade, “que fosse inabalavelmente firmada a proclamação de nossa independência e da realeza constitucional na pessoa do augusto príncipe”.  Era a proclamação de D. Pedro como Imperador pelos maçons, e que resultou na consagração da Independência em 7 de setembro quando o então Príncipe retornava para o Rio de Janeiro.

A crise aumentou com o confronto direto entre dois grupos de maçons brasileiros. De um lado, José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência do Brasil, Ministro de Dom Pedro I, defensor da última monarquia da América Latina e Grão-Mestre do GOB, que liderava a facção Maçonaria Azul. Do outro, seu 1º Grande Vigilante, Joaquim Gonçalves Ledo,  líder dos maçons da Maçonaria Vermelha, que lutavam ao lado dos  radicais liberais defensores de uma República no Brasil.

E o Imperador, diante dessas lutas e rivalidades entre os próprios maçons, fechou o Grande Oriente, mas não calou os verdadeiros maçons. A busca pela liberdade e igualdade não tinha terminado com a separação de Portugal. Os maçons perderam lideranças e passaram a viver uma crise maior quando em 1864, o Papa Pio XI editou a bula Syllabus, que proibia qualquer ligação da Igreja com a Maçonaria.

Com D.Pedro II no poder foi retornado os laços com os maçons, que passaram a ocupar os principais cargos no Palácio. Mas por ser um país de origem católica, a restrição imposta pela Igreja gerava constantes conflitos.  Vários padres maçons negavam-se a aceitar a determinação de abandonar a Órdem, o que gerou punições tanto por parte da Igreja quanto represálias por parte do Governo. Tal situação se agravaria pois era de conhecimento do Império a participação ativa de diversos grupos de maçons nos movimentos revolucionários em favor da República, existentes mesmo antes de 1822 e denominados de conspiradores.  Assim como a luta pela definição por um Estado laico, com o afastamento da Igreja do poder.

O grupo de maçons contra a monarquia cresce e passa a participar ativamente dos movimentos abolicionistas.  E em 13 de maio de 1888 alcançou o auge com a participação ativa na aprovação da Lei Áurea que libertaria de vez todos os escravos no Brasil. Seria também uma mensagem direta pelo fim do Império e para a implantação da República, que viria a se concretizar logo após a vitória da Tríplice Aliança – Brasil, Argentina e Uruguai – na Guerra do Paraguai com o reconhecimento pelo povo da força e importância do Exército, um verdadeiro viveiro de maçons. Era o elemento que faltava para a criação da República.

O momento era crítico para o reinado. O Imperador D. Pedro II encontrava-se doente e o Império decadente. As elites latifundiárias continuavam contra a Princesa Isabel por sua assinatura na Lei Áurea, e o povo em geral, não aceitava que o Conde D’Eu, um estrangeiro de comportamento controvertido, pudesse ser o futuro Rei do Brasil. Foi quando Benjamin Constant e Deodoro, em reunião secreta com as elites militares, republicanas e maçônicas, decidiram pela queda do Império no Brasil.

Em 15 de novembro de 1889, o Marechal Deodoro, autonomeou-se Chefe do Governo Provisório da República do Brasil, instalando um ministério totalmente maçônico e filiado ao Grande Oriente do Brasil. Na Justiça, Eduardo Campos Sales, Wandenkolk na Marinha, Benjamin Costante na Guerra (Exército), Rui Barbosa indicado para a Fazenda (Finanças), Demétrio Ribeira na Agricultura, Quintino Bocaiúva nos Transporte e Aristides Lobo no Interior. E para consolidar a força da Maçonaria, no dia 19 de dezembro do mesmo ano, o Chefe do Governo, Marechal Deodoro, foi nomeado Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil.

Um ano depois, em 15 de novembro de 1890, foi instalada a Assembléia Constituinte que promulgou a Constituição de 24 de fevereiro de 1891 e implantou o presidencialismo e o federalismo na República Federativa do Brasil. O governo provisório foi encerrado em 26 de fevereiro do ano seguinte com a eleição de Deodoro como o Primeiro Presidente, e para Vice-Presidente, o Marechal Floriano Peixoto, Ajudante General do Exército.

A República nasceu no meio de crises, principalmente entre o Exército e a Marinha, que não aceitava ter sido derrotada na eleição para a Vice-Presidência, e no dia 23 de novembro de 1891, o Marechal Deodoro se viu obrigado a renunciar ao cargo para não provocar uma guerra civil. Desgostoso e doente, no dia 18 de dezembro do mesmo ano, renunciou também ao Grão-Mestrado.

Assume o Vice-Presidente Marechal Floriano Peixoto, maçom que passará à história como o Consolidador da República e que irá transmitir o poder para os presidentes civis, a maioria deles maçons, que com o apoio de uma sociedade secreta de origem alemã e maçônica, de ideais republicanos e iluminista, a Burschenschaft, ou simplesmente Bucha, ajudará a administrar o ciclo político conhecido como a República Velha ou das Oligarquias, que durará até a Revolução de 1930.  A partir de então a Maçonaria passa a perder o poder de influência no Estado brasileiro.

Até a metade do século XX, a Maçonaria enfrentou períodos de crises e perseguições, principalmente no decorrer das Grandes Guerras. O pós-guerra, foi também turbulento, e a ação da maçonaria, inclusive no período da ditadura militar, não foi relevante no cenário político. A partir do final dos anos 70, o Brasil vive seu maior ciclo democrático, com fortalecimento das instituições democráticas e republicanas, conquista a liberdade de expressão, moderniza-se e melhora sua economia.  Sem participar de ações diretas ou indiretas, a atuação da Maçonaria passa a se concentrar, salvo raríssimas exceções, nas áreas cultural e social.

O maçom volta-se mais para a ritualística, para o estudo da formação do homem. Os Grandes Orientes e as Grandes Lojas se reúnem com o objetivo principal de apreciarem e reverem seus mais diversos rituais vendo surgir, no Brasil e no mundo, novos grupos de maçons independentes, inclusive femininos.

A dificuldade de realizar programas sociais, assim como a necessidade de recursos para a própria sobrevivência, e a sensível redução do número de iniciados, são motivos para que as Lojas continuem a restringir o acesso de camadas sociais de menos recursos aos seus quadros, o que mantém a visão de outras épocas, de que a Maçonaria é uma sociedade para as elites.

E essa é a característica do maçom do século XX, que contraria para muitos a história de lutas e conquistas políticas da Maçonaria de séculos anteriores. A nova realidade gera certo desconforto quando se deparam grupos que defendem o retorno da Maçonaria às causas políticas e outros, a maioria, que vêm a organização como uma entidade social quase que exclusivamente voltada para a filantropia, mas que pouco consegue realizar, seja pela falta dos metais (dinheiro), por  ausência de força política, ou mesmo por  desinteresse de grupos (Lojas) que não conseguem unir-se para o desenvolvimento dessas causas sociais.

No final de nosso século XX, o Brasil passa a viver momentos turbulentos na política e no seu dia a dia. A corrupção, as improbidades administrativas, o crime nas ruas, as drogas, passam a ser manchetes diárias nos jornais. E na Maçonaria crescem movimentos não somente com o desejo de lutar contra esses males mas também de criar ações para valorizar bens como a educação, o trabalho e a família, esta a célula mais importante para a formação e manutenção de um povo.

Para tanto, surge a necessidade de um melhor padrão de recrutamento para os novos maçons.  Observa-se o desejo na busca de elementos que sejam bem colocados em suas áreas de atividades. Que possuam o perfil de liderança e que estejam dispostos a fazer um pouco mais pela sociedade sob o terno preto da Maçonaria.

Não podemos mais viver dos louros de um passado cada vez mais remoto. As conquistas alcançadas devem ser exaltadas, lembradas, gravadas, mas não podemos deixar de viver o presente, de participar de forma ativa para a melhoria da sociedade, pois o futuro depende de hoje e a Maçonaria tem que se reestudar, se fortalecer, se adaptar aos novos tempos para que possa cumprir seu papel de tornar o mundo melhor.
O maçom do próximo século XX será fruto de nossa atuação com vistas à reconstrução social e cultural e a luta contra as mazelas e desigualdades que permeiam o início desse século XXI.

Não acreditamos que o futuro seja predeterminado pelo passado, vitorioso ou não, e nem mesmo pelas condições vigentes. Entendemos que temos que construir esse futuro e para tanto, o maçom, como homem livre e bons costumes, deve participar diretamente neste processo.

São muitos os desafios. Hoje somos reféns de planejamentos econômicos mal sucedidos e de políticos inescrupulosos que infestam os poderes. A inflação ameaça e a diferença entre ricos e pobres permanece em proporção inadmissível. A educação evolui numa taxa mínima, digna de país de terceiro mundo. O meio ambiente não tem a atenção que o mundo moderno cobra. O que fazer neste século para preparar o maçom do século XXII?

Será que teremos tempo suficiente para intervir nesses pontos críticos? Ou será que devemos manter a posição de uma sociedade cultural e social, voltada para a filantropia dos reféns de uma sociedade democrática em crise?

Cem anos é um bom espaço de tempo. É suficiente para planejamentos de médio e longo prazo, mas que não pode ser realizado se ficarmos “sentados em berço esplêndido”.  A Maçonaria deve repensar seu rumo, amadurecer suas ideias e buscar resultados imediatos e mediatos para a criação de um futuro que parece longe mas que não é tanto assim.

A verdade é uma só, vamos colher o que plantar, e temos que conhecer muito bem o solo e o que se deve nele utilizar. Percebemos com a chegada de novos Aprendizes que existe possibilidade de mudanças. Grupos de maçons já unem esforços para a identificação de metas e propostas que vão além da ritualística e das filantropias de pouco alcance.

É possível observar o uso de técnicas mais elaboradas assim como o uso da informática e da informação em nível bastante elevado, inclusive no caminho para a efetiva participação na vida pública do país. É o caminho certo?

Como nação, entendemos que nós, cidadãos, devemos ter nossos direitos expressos, assim como o dever de participar no sistema político que deve estar preparado para proteger esses direitos. É a essência da democracia, da luta pela proteção à liberdade, de ir de encontro à vontade da maioria, do incentivo aos direitos individuais e da proteção aos direitos humanos fundamentais.

E nesta linha de pensamento, o maçom neste século XXI tem que se preparar para não para ser mero coadjuvante, deverá entrar em cena como ator capaz de discutir e elaborar propostas para as questões que abalam o país. É imprescindível conhecer os mecanismos que levam o país para a inflação, a sua política social, como tratar a pobreza, as drogas, educação e o meio ambiente, e para isso deverá também estar preparado para ser um legítimo representante do povo, apoiado pela Maçonaria e presente em todos os poderes de nossa República.

É uma visão que não compete com as ações filantrópicas nem com o aprendizado em Templo, muito pelo contrário, uma está ligada diretamente às outras que se unem para o bem da sociedade.  E se o maçom do século XXI conseguir atingir a base desses objetivos, com certeza terá plantado o maçom do século XXII, que poderá voltar a ter o papel principal de uma sociedade justa e perfeita que tanto sonhamos.




J Neto.´.
Mar/15