terça-feira, 31 de março de 2026

O Convite e a Chave

Houve um tempo em que a porta não se abria com facilidade. Não porque estivesse trancada com mais voltas de chave, mas porque quem se aproximava dela já trazia, no próprio caráter, o formato exato da fechadura.

O convite não era um gesto social. Era quase um reconhecimento silencioso, como dois viajantes que se cruzam numa estrada antiga e, sem palavras, sabem que seguem o mesmo destino. Ninguém “queria entrar”. Era chamado. E, mais importante, era digno de ser chamado.

Hoje, porém, a porta continua ali… mas algo mudou no modo como se bate.

Vejo irmãos preocupados com cadeiras vazias, colunas rarefeitas, templos que ecoam mais memória do que presença. E, na tentativa de reacender a chama, flexibiliza-se o crivo, suaviza-se o olhar, acelera-se o processo. O convite, que antes era lapidado no tempo e na observação, passa a ser, por vezes, uma solução imediata para um problema estrutural.

Mas a Ordem nunca foi quantidade. Sempre foi densidade.

O erro não está em abrir a porta. Está em esquecer por que ela existe.

Quando o convite deixa de ser consequência de convivência e passa a ser estratégia de crescimento, algo sutil se perde. Entram homens interessados, mas nem sempre comprometidos. Curiosos, mas não necessariamente buscadores. E há uma diferença imensa entre quem deseja conhecer os símbolos e quem aceita ser transformado por eles.

A Iniciação, por mais perfeita que seja em sua liturgia, não corrige intenções. Ela revela. Amplifica. Expõe o que já está ali. E quando o alicerce não é sólido, a construção pode até subir… mas não sustenta o tempo.

Não se trata de nostalgia de “tempos melhores”. Trata-se de lembrar que certos princípios não envelhecem. O rigor no convite nunca foi um capricho elitista, mas uma proteção silenciosa da própria essência da Ordem.

Talvez o caminho não esteja em convidar mais… mas em observar melhor.

Voltar a enxergar o homem antes do candidato. O caráter antes da disponibilidade. O silêncio antes do entusiasmo.

Porque, no fim, a verdadeira pergunta nunca foi: “Quem queremos trazer?”

Mas sim: “Quem, entre os que já caminham ao nosso lado, já carrega em si a chave?”

E essa chave… nunca se fabrica. Apenas se reconhece.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

O Homem-maçom

 A maçonaria procura ensinar a seus iniciados virtudes do espírito maçônico, como a tolerância, a prudência e a luta pela liberdade, igualdade e fraternidade, buscando a justiça contra o mal e a mentira.  É a busca da perfeição, caracterizada pelos rituais e nas promessas de ações dignas e confiáveis.

O homem-maçom porém não é um ser perfeito.  Na verdade é apenas um homem, que embora iniciado, e desta forma considerado mais preparado para a vida, está constantemente sujeito aos vícios e fraquezas do mundo profano e, em muita das vêzes seu comportamento contraria profundamente os ideais maçônicos.

O homem-maçom não pode levar para seu Templo as angústias de suas atitudes profanas.  Não pode deixar que as colunas do Templo se abalem diante de suas dificuldades e dos momentos mais difíceis.  Deve ser forte, sincero e buscar nos ensinamento da Grande Arte, as ações e palavras que o dignifique, e que junto a seus irmãos, numa grande Cadeia de União, possa absorver os ensinamentos necessários para superar as adversidades e armadilhas do mundo profano.

A Loja é na realidade um pequeno estado, sujeito a leis e obrigações que buscam organizar a vida do maçom, preparando seu espírito e dando armas para sua evolução, de tal forma que o homem-maçom possa estar sempre firme na interminável luta entre o bem e o mal.

Quando o homem se perde, deixando que suas fraquezas superem as virtudes.  Que o vício, a mentira, o egoísmo ou mesmo a vaidade, o faça enfrentar seus semelhantes, irmãos ou não, ele não está apenas se perdendo, está acima de tudo traindo os ideais da Órdem, e portanto sujeito às penalidades necessárias para a manutenção e purificação do meio ambiente.

Portanto uma Loja, acima de tudo deve ser unida. Seus obreiros devem cultuar o espírito maçônico, superando os desafios profanos e ajudando uns aos outros, como homens e maçons.  Deve ser ainda cautelosa, maçônica em suas atitudes, e saber escolher para suas colunas, homens verdadeiramente livres e de bons costumes, que serão iniciados em homens-maçons e que certamente ajudarão na construção e na harmonia do seu próprio Templo.

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sábado, 28 de novembro de 2020

Fidel Castro foi salvo pela Maçonaria?

 

Fidel Castro foi salvo pela Maçonaria?

 

Este fato teve destaque em boa parte da  imprensa internacional, quando Fidel Castro foi preso por Fulgêncio Baptista. Dizem que quando prendia seus “inimigos”, Fulgêncio tinha o enorme prazer de não os executar de imediato. Que apreciava deixar os prisioneiros das guerrilhas, pelo menos 24 horas sem água e sem comida, que torturava os “inimigos” sem piedade, para então na manhã seguinte, fuzilá-los.

O que aconteceu:

Sabemos que os Maçons estão espalhados por todo o mundo, nas mais variadas profissões , classes sociais e partidos políticos, com bastantes limitações nos países totalitários. Neste sentido há uma exceção que realmente confirma a regra da Lealdade Maçônica. Em Cuba a Maçonaria funciona livremente desde a revolução no ano de 1959 , e manteve sempre excelentes relações com o Governo de Fidel Castro, esta exceção deve-se a um fato narrado em grande parte da imprensa internacional pelo próprio líder Cubano, quando ele, (Fidel) e mais dois companheiros de guerrilha foram aprisionados pelas tropas de Fulgêncio Baptista.

No momento, nem os próprios inimigos imaginavam que entre os três estava Fidel Castro e decidiram fuzilá-los na manhã seguinte como prisioneiros COMUNS. Um dos revolucionários era Maçom, e naquela mesma noite durante o julgamento dos três fez um sinal de reconhecimento de uso exclusivo daqueles iniciados no movimento.

Nas forças de Baptista, o tenente encarregado do fuzilamento dos três, reconheceu os sinais, e durante a madrugada veio conversar com eles, facilitando a sua fuga e também a de seus camaradas, poupando-os à morte, e livrando também aquele que seria o principal líder da revolução Cubana.

No meio do caminho, durante a fuga, Fidel Castro, incrédulo quis saber porque é que um inimigo, encarregado do fuzilamento dos três, veio de madrugada, e após conversar com um dos seus camaradas, o libertou e aos seus amigos.

O companheiro de guerrilha explicou-lhe que aquele tenente era Maçom, e os tinha libertado pelo ideal de fraternidade, indissolúvel da irmandade, que fica sempre acima das ideologias.

Adaptado de Autor desconhecido

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

TEM GOTEIRA NO SALÃO


- Cuidado, tem goteira no salão.
Qual Maçom que nunca ouviu essa frase? Mas muitos, principalmente entre os Aprendizes, questionam a origem do termo. Por que “goteira”?
A Maçonaria é movida por lendas e histórias, algumas escritas e outras apenas faladas. E a mais aceita para o significado de “goteira”, remonta às tabernas do século 18. Estas eram os locais preferidos para a reunião de grupos seletos, fechados, secretos, e claro, dos maçons.
As tabernas eram estabelecimentos comerciais, que normalmente também serviam de casa para seus donos, e que nos fundos, em salas fechadas, diversos grupos, cada um com sua ritualística, se reuniam em relativa segurança.
E para os historiadores, em geral, a denominação de Loja (Maçônica) vem dessa situação, ou seja, corresponde ao local (as salas) utilizado para “alojar” os maçons e não para o estabelecimento comercial (as tabernas).
A constatação dessa linha de pensamento estaria nos próprios termos utilizados para a denominação de Loja Maçônica nas principais línguas que influenciaram na construção da Maçonaria Simbólica, como a conhecemos nos dias de hoje.
Uma observação interessante, é de que, diferentemente dos termos utilizados nas línguas francesa (loge), italiana (loggia), espanhola (logia), inglesa (lodgeI) e alemã (loge), onde todos representam lugares para acomodação, ou seja, cômodos, casas de caseiro, cabana, ou mesmo um quarto de repouso, loja, no Brasil, tem um significado ligado ao comércio, o que nos leva a uma afirmação de que o termo mais correto para os locais de nossas sessões não seria Loja Maçônica e sim Alojamento Maçônico.  Mas isso é uma outra história.
- E os “goteiras”? Como chegaram?
As reuniões nas salas reservadas das tabernas, tinham que ter segurança, com proteção, e para tanto, os maçons daquela época utilizavam uma dupla proteção.  No interior da sala onde se reuniam, ficava o “Cobridor”, um guarda com espadas em punho, e o responsável pelo acesso ao local das reuniões. Sua denominação veio do fato de que aquele local era fechado e coberto, e claro não poderiam existir goteiras, termo que passou a ser utilizado para definir os profanos curiosos, bisbilhoteiros (cowan), que ficavam encostados nas paredes das tabernas para tentarem escutar o que se falava naquelas salas misteriosas para eles. Quando pegos, eram colocados sob uma calha, debaixo das goteiras formadas pelas águas das chuvas, ou simplesmente molhados, até ficarem totalmente encharcados.
E para garantir que os visitantes que chegavam para as reuniões não eram “goteiras”, e que mesmo se fossem maçons, estariam qualificados para o nível da reunião (de Aprendizes ou Mestres – Companheiro é um Grau que veio depois), o guarda externo, conhecido como “Trolhador” , palavra que tem origem na atividade profana de telhar, ou seja, de “colocar telhas nas coberturas e garantir que não tenham goteiras nos locais das reuniões”, fazia a verificação por meio de palavras, sinais e toques, além de um conjunto de perguntas, com respostas somente conhecidas por maçons, e que recebeu a denominação de “telhamento”.  Nos dias atuais, e na maioria dos ritos, a função de “Tolhador”, é executada pelo Irmão Experto.
 
E pela riqueza das histórias que envolvem a Maçonaria, desde a fase operativa até a simbólica dos dias de hoje, outras explicações deverão existir, tanto para os termos aqui descritos quanto para diversos outros existentes em nossa Ordem, mas devemos ter muito cuidado, pois atualmente existe um número grande de “goteiras”  que escrevem distorções e fantasias a respeito da Maçonaria em geral.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

“NINGUÉM MONTARÁ EM CIMA DE NÓS SE NÃO NOS CURVARMOS” (Martin Luther King)


S
ão vinte anos de maçonaria e pouca coisa tem me surpreendido no dia a dia de nossa Ordem, mas um fato, que não chega a ser novidade, me assustou e custo a acreditar que possa continuar ou mesmo se estender: a censura.

Censurar a imprensa, é coibir a liberdade de expressão.  É  não pregar a igualdade de valores.  E para nós, quando o fato acontece por meio de outros irmãos, é também ir contra o espírito fraterno que deveria nortear os passos de qualquer maçom. 

Não há que se falar em democracia, se a imprensa não for e não se sentir verdadeiramente livre, sem mordaças, com a garantia de poder se expressar sem censura, ameaças, pressões ou mesmo violências.  E infelizmente quando lemos num texto de nosso Irmão Jaciré Braga, frases fortes e diretas, como “não vamos parar de circular”, “calar nesse momento significa aceitar o fim da verdade maçônica” e “não vamos calar a nossa voz”, muito me preocupa o que tanto o transtornou, ou melhor, “quem o proibiu de que?”

Não por acaso, veio à minha mente uma das expressões de liberdade mais forte que conheço: NINGUÉM MONTARÁ EM CIMA DE NÓS SE NÃO NOS CURVARMOS, dita por Martin Luther King, consagrado como um dos maiores ícones na incessante luta pela liberdade e igualdade.  Sua mensagem vai de encontro com nossa Constituição, que contempla como poucos países do mundo, a plena liberdade de imprensa no país, como é possível observar no texto de seu art. 220, ou seja, "a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição", sendo que em seu parágrafo primeiro complementa: "nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV".  É o direito de ser informado e também o direito de querer informar, fato que estamos tentando fazer e que esperamos possa ser “liberado pra publicação”.

As palavras de Braga foram em relação a um texto do Irmão Newton de Alcântara Filho, que comentava sobre a existência de inúmeras Lojas que sobrevivem pela teimosia de alguns abnegados irmãos, que por um motivo ou outro, ajudaram a cria-las, ao lado de dezenas de irmãos que assinaram a relação de fundadores, e que depois nunca mais voltaram, principalmente os tradicionais irmãos de Altos Cargos. E censura-lo é apenas tentar tampar o sol com a peneira. 

Participar do quadro de diversas Lojas não pode ser visto como solução para a manutenção de inúmeras pequenas Lojas. De outra forma, a ausência de um patrimônio sustentável, de um quadro fixo de obreiros capaz de fazê-las funcionar sem a colaboração de terceiros, assim como a valorização de motivos fúteis para manutenção de sua existência, somente pode interessar a aqueles que erradamente vislumbram com o aumento no número de Lojas, o que nada acrescenta aos trabalhos maçônicos, a não ser uma fictícia demonstração de expansão da Maçonaria, que assim cresce em número de Lojas, mas não em número de obreiros e muito menos na qualidade desejada.

O texto do Irmão Newton, proclama a manutenção de Lojas fortes, autônomas e parceiras, sem imposições externas, desejo incontestável da maioria dos obreiros, e chama também a atenção de que não devemos viver das glórias do passado, e que temos que aprender a pedir desculpas e reconhecer nossos erros.  Então por que haveria de se proibir a divulgação de tais idéias?   Nos parece um resquício de outras épocas em que se valorizava em demasia o “status” de ser maçom. 

Na verdade, o texto tem uma mensagem de verdade, e que tal situação é uma clara mensagem de que nossa maior necessidade é o fortalecimento da Ordem, com crescimento consciente, e unidos cada vez mais. E para tanto se faz necessário a humildade em nossas atitudes, buscar integração com a sociedade e valorizar a participação de cada um, sabendo distribuir funções e cobrando resultados. 

Por outro lado, há que se temer e evitar que idéias retrógadas de censura possam tomar força material e alcançar a Ordem que prega a Liberdade, Igualdade e Fraternidade, valores desejados e batalhados pelo homem em toda a sua história. 

Diria Jean-Paul Sartre: “para conhecer os homens, torna-se indispensável vê-los agir” e somente com a divulgação de seus feitos, de forma honesta e correta, com a plena liberdade de expressão, conseguiremos conhecer as atitudes e as ações de cada um, para que dessa forma possamos até mesmo julga-los, se assim for necessário.

Aos irmãos Braga e Newton, meu apoio, meu carinho e o reconhecimento pela proposta de um trabalho em prol da Maçonaria e da liberdade de expressão, a “rainha das liberdades”, como nos disse Rui Barbosa.

(Texto de mar/2006)